sexta-feira, 23 de julho de 2010

A farsa do debate eleitoral e a ausência de perspectivas

O debate político está enterrado e tornou-se eleitoreiro na democracia liberal burguesa no mundo e atualmente no Brasil. Isto pode ser comprovado através do comportamento dos candidatos que estão à frente das pesquisas eleitorais para a presidência da república. Em parte, a estratégia defensiva de como os temas são tratados me parece racional (que não significa o melhor dos mundos em termos de projeto autêntico, mas segue as linhas mestras de enxergar a política como ela é - lição de Maquiavel),  já que falar sobre assuntos como o aborto, os sem-terra e o controle ou a responsabilização dos meios de comunicação sobre as questões que envolvem a sociedade tornou-se chavão em termos de argumentos e ao mesmo tempo quase que impossível de ser tratado com a profunidade que merecem. Isso mostra que a igreja, o latifúndio  e a mídia são poderosíssimos em nossa Mátria (a mãe que acolhe todos com a distinção devida).
O candidato Serra faz isso com maior desenvoltura no sentido da facilidade com que se posiciona a favor das elites e a candidata Dilma trata desses temas sempre de forma muito treinada pela assessoria petista e outros atrás dos bastidores. O candidato tucademo comprova que seu partido nunca teve qualquer envolvimento com movimentos sociais no Brasil, apesar de sua sigla sugerir Partido da Social Democracia Brasileira - PSDB. Isso não aconteceria nem nos Estados Unidos, já que para um partido ser considerado social-democrata é no mínimo necesário que ele tenha afinidade ou ligação com bases sindicais de trabalhadores e outras agremiações ligadas as lutas sociais e democráticas.
A imprensa diz repetidamente que os programas dos dois partidos são muito parecidos para propositalmente confundir os eleitores, isto é, PT e PSDB, mas as ações negam tal propriedade, pelo menos quanto ao tratamento dado a determinados temas, principalmente a partir da política externa de Lula e outras negociações importantes com os próprios sem-terra e sindicatos, além de políticas públicas de inclusão e o tratamento dado ao funcionalismo público federal.
Enquanto isso o projeto de Serra é avesso a grande parte das questões voltadas a um melhor tratamento dado aos sem-terra e a universalização de políticas públicas de inclusão alternativas e outros projetos relacionados ao controle estratégico do Estado. Então, na prática os projetos são bem diferentes. Ao mesmo tempo, o pragmatismo de determinadas políticas econômicas, que é nada menos que a principal das políticas é tratada com o consenso esperado pela mídia e pelos banqueiros a partir dos dois candidatos principais à presidência. Nada fora do script para não causar nenhum tumulto na entidade chamada "mercado" antes das eleições como forma de barganha maior à sabatina eleitoral. Como bem lembrado pelo meu amigo Walter, as discussões tanto nos Estados Unidos quanto na Europa se referem a estabilidade econômica, mesmo que essas sejam remendos superficiais e que gerem crises cíclicas, corroborando com os próprios alicerces inerentes de um sistema na sua raiz desigual, isto é, o capitalismo.
A discussão está colocada, mas para infelizmente poucos, mesmo no universo da elite acadêmica e midiática, e que ainda tem a pretensão de enaltecer a expressão "voto consciente" como sendo aquela que irá nos salvar de todos ou quase todos os males da institucionalização da política parlamentar. Quanto a esse aspecto apoio o "voto raciona" da pobreza, que pelo menos enxerga o voto como a expressão de uma escolha baseada naquilo que vê e sente, isto é, políticas públicas concretas, ao contrário da nossa pequena burguesia ou classe média que escolhe aquilo que é incompatível com aquilo que tem e poderá ter, sem contar a ausência de uma perspectiva em termos de construção alternativa de nação, já que está mais preocupada com o seu consumo fetichizado por natureza de classe.

Sem muita hipocrisia me direciono no momento para o pragmatismo Lula-Dilma, já que o projeto político-partidário continua em aberto com algumas nuances dos partidos menores que se encontram à margem esquerda na sua essência, mas ainda por muito a fazer em termos de construção de uma alternativa que coloque o debate essencialmente político na pauta e que procuram, pelo menos, dar início a um movimento que venha a romper com o processo de desideologização que o sistema político burguês delegativo promove aliado a burocracia de Estado e ao capitalismo. Não se trata de um projeto elitista de argonautas e aos critérios delegativos de um Hércules político, ao contrário, ele deve ser construído socialmente. A questão está em como fazer isso, já que precisamos de indivíduos capazes e que ao mesmo tempo compreendam a real tarefa de inclusão política, sem iludir-se que a formação de um "voto consciente" iluminado e o discernimento e a participação política da sociedade ocorram por vontade própria e pela educacação nas escolas. Isso não irá acontecer, ao mesmo tempo que esperar que o coletivismo político venha a surgir de pessoas sem o mínimo preparo educacional, não aquele da escola evidentemente.  A luta política é extremamente desigual, por isso ela deverá formar as crianças e jovens a partir de uma educação que seja adequada aos moldes do conhecimento associado a luta política libertária. Ex: os sem-terra. Mas a questão continua em aberto: como construir uma educação alternativa em um mundo cada vez mais burocrático-institucional, onde o capitalismo preencheu quase todas as lacunas e opções de acesso as coisas que envolvem o mundo moderno. A cultura, o entretenimento, o lazer, o esporte e as comunicações estão nas mãos dos capitalistas, em grupos econõmicos-financeiros cada vez mais concentrados pelo poder material associativista. Há única alternativa que eu vejo está na organização para a revolução, e isto não se fará com diálogos, mas com ações cada vez mais pontuais em termos de enfrentamento físico-material; mas mesmo para a utilização da força é preciso o devido preparo,  que o grau de atomização e pasteurização da sociedade não se permitirá avançar nesses termos, porque estará cada vez mais arriscado fazê-lo. Deixarei vocês com as minhas inquietações e contradições abertas a um próximo diálogo impertinente.

Marcelo Gonçalves Marcelino

Para quem pensa que juros é só questão que deve ser abordada por economistas vale a minha insistência sobre o tema

Agência Carta Maior - 20/07/2010

Juros: crônica de uma elevação anunciada

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, anunciará que, a partir do dia 22 de julho de 2010, a taxa de juros com a qual o governo federal remunerará os agentes do sistema financeiro pela compra de seus títulos públicos será de 11% ao ano.

Paulo Kliass

Eu juro para vocês que gostaria de mudar um pouco de assunto, sair de temas um tanto quanto recorrentes como a questão financeira e a taxa de juros. Mas, infelizmente, a agenda da política econômica do governo me impede de discorrer sobre assuntos, digamos, mais amenos.

Enquanto escrevo este artigo, a grande imprensa trata os futuros resultados da próxima reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central (BC) como favas contadas. Hoje, dia 19, segunda-feira, de acordo com sua agenda na página na instituição, o Presidente do BC tem uma “reunião de mercado no Banco Central em Brasília”, seja lá o que isso signifique. Em seguida, nos dias 20 e 21, participa e preside a reunião do COPOM. Tal liturgia ocorre, quase que de maneira religiosa, a cada 45 dias, quando os resultados mais aguardados pelo tal do “mercado” e pelos demais membros “normais” da sociedade brasileira são a definição da taxa de juros SELIC e o texto na íntegra da ata da reunião do nobre colegiado.

Essa mesma ladainha já nos incomoda há muitos e muitos anos. E, de tanto ela ser repetida, associada à falta de coragem política dos governantes em contestar essa mentira travestida de “onipotência científica”, o Brasil continua sua trajetória desgovernada rumo aos efeitos maléficos do monetarismo ortodoxo, completamente orientado para satisfazer, de forma prioritária, as vontades do sistema financeiro e seus beneficiados em nossa sociedade.

As manchetes dos cadernos de economia dos grandes meios de comunicação anunciam, para quem quiser ler e ouvir, que o COPOM deverá elevar ainda outra vez a taxa básica de juros do governo. Não satisfeito com os atuais 10,25% ao ano, o campeão mundial da taxa de juros pretende aumentar ainda a sua distância em relação ao pelotão dos retardatários, para manter com segurança o “maillot jaune”, a tal da camiseta amarela conferida ao ciclista primeiro colocado nas etapas do “Tour de France”. De acordo com as fontes consultadas pela imprensa especializada, não deverá haver mistério quanto à proposta a ser aprovada pela reunião pelos mesmos membros da diretoria do BC, que se traveste com as pompas de COPOM a cada 6 semanas e mais três dias. O Presidente Henrique Meirelles anunciará que, a partir do dia 22 de julho de 2010, a taxa de juros com a qual o governo federal remunerará os agentes do sistema financeiro pela compra de seus títulos públicos será de 11% ao ano. Que beleza....

Agora vamos buscar as verdades nos não ditos, nas entrelinhas, na realidade dos fatos e nas conseqüências econômicas de tal violência. O estoque de nossa dívida pública se aproxima do valor de R$ 1,6 trilhão. Uma operação singela de cálculo aritmético nos oferece o quadro de aumento das despesas do Tesouro e do Orçamento em razão de tal elevação. Esse simples aumento de 0,75% na taxa SELIC elevará tais gastos em R$ 12 bilhões ao longo dos próximos 12 meses. O que significa uma despesa extraordinária que, por si só, quase se aproxima dos valores totais previstos no Orçamento de 2010 para o conjunto de um programa social como o Bolsa Família.

Uma outra maneira de avaliar o impacto dessa política monetária destruidora e irresponsável é o resultado estimado de despesas do orçamento federal em 12 meses. Os gastos do governo federal provocados por mesmos 11% da taxa SELIC em relação à sua divida de R$ 1,6 trilhão serão de R$ 180 bilhões ao longo de 12 meses. E depois o governo manda dizer, a cada demanda que aparece da sociedade e dos movimentos sociais, que a “política séria e de extrema austeridade na conduta fiscal” não lhe permite fazer gastos “irresponsáveis” com saúde, educação, previdência social e similares. Isso porque o seu compromisso é o de alcançar a tão glorificada meta de superávit primário. Uma loucura!

Aguardemos ansiosamente o pronunciamento dos candidatos e das candidatas ao pleito de outubro a respeito desse pequeno detalhe da vida nacional. Qual a avaliação que fazem da condução de tais propostas ao longo dessa década e meia? O que apresentam como alternativa para reduzir o custo social, econômico e política dessa aventura inexplicável, que transfere recursos do conjunto da sociedade para beneficiar setores afortunados de sua elite?

Não há espaço aqui para debater em detalhes a respeito das bases teóricas que sustentam tal visão do fenômeno econômico e das soluções para enfrentar as dificuldades que surgem a cada momento. De uma forma resumida, pode-se focar na questão do chamado “aquecimento excessivo” da demanda e dos riscos do retorno da inflação elevada, característica dos períodos anteriores ao Plano Real. Os modelos existentes por trás da política econômica implementada desde 1994 pressupõem a existência de uma meta de inflação para um período futuro (em geral, de um ano) e que, para atingi-la, o principal instrumento de que o governo federal dispõe é a fixação da taxa oficial de juros. A tal da política monetária. O pressuposto é de que taxas de juros mais elevadas atuam como inibidoras da demanda do conjunto da sociedade (menos investimentos, menos gastos públicos, menos consumo das famílias) e assim contribuem para evitar o crescimento dos preços. Isto porque estes últimos estariam em alta por um aumento desproporcional dessa mesma demanda, dita agregada, do conjunto da sociedade e da economia. Apenas quero frisar que esse enfoque é por demais restritivo e polêmico.

No entanto, a questão se coloca é mais ampla, e supera em muito a simples utilização da meta de inflação e da fixação da taxa de juros. Em primeiro lugar, porque, ao contrário do que pretende nos enganar a grande imprensa e nos iludir os responsáveis pela condução da política econômica, não existe nenhum tipo de “neutralidade científica” na tomada desse tipo de decisão. Todas essas medidas são absolutamente marcadas pelo elemento da “Política” com pê maiúsculo mesmo. O argumento muitas vezes utilizado de que isso é “coisa complicada, que só os economistas entendem” não resiste a um debate entre as diversas correntes do pensamento econômico, que oferecem explicações e soluções distintas para cada fenômeno abordado.

A grande imprensa retrata as decisões de anúncio da nova SELIC como tão somente o surgimento de um elemento a mais a levar em conta na tomada de decisões dos operadores do mercado das finanças e da economia. Um item a mais, que se soma a outros tantos como taxa de câmbio, taxa de inflação, nível de reservas internacionais, crescimento do PIB, etc. O fato, porém, é que este simples anúncio transcende em muito o que dele se esperava nos modelos econômicos teóricos. A divulgação da SELIC não é apenas um ato de tornar explícita a intenção do governo de sinalizar para o mercado o quanto ele, governo, acha que deveria ser um nível adequado da taxa de juros para reduzir a eventual demanda aquecida. O governo participa efetivamente da implementação desse novo patamar de juros e isso provoca, entre outros, o custo orçamentário acima mencionado. É, repitamos aqui, uma decisão absolutamente carregada de política, como se o governo estivesse a nos dizer: nossa prioridade é gastar com o lado financeiro, pois para esse tipo de despesa com juros nunca haverá limite. Já para as outras despesas, com o chamado lado real (não financeiro) da economia, a nossa disposição não é exatamente a mesma, afinal há sérias restrições na condução da política fiscal e não podemos ser irresponsáveis na execução do gasto público, pois os recursos orçamentários são limitados e tome blá-blá-blá-blá...

O ritual das preliminares da reunião do COPOM envolve a divulgação do conhecido Boletim Focus, em que aquela entidade mágica e inatingível chamada “mercado” apresenta suas expectativas, a partir de uma estimulação do próprio BC. Trata-se da divulgação dos resultados proporcionados pelos inúmeros modelos econômicos e econométricos que circulam pelas empresas de consultoria e pelas áreas econômico-financeiras dos bancos e das empresas do setor. Perspectivas quanto à inflação futura, projeções de crescimento do PIB, possibilidades de desempenho setorial e das contas externas, perspectivas do desempenho internacional. Em suma, o mesmo tipo de modelo sério e infalível que oferecia toda a garantia à economia norte-americana e européia até a ante-véspera da crise que se iniciou em 2008. Todos (os que foram convidados, obviamente...) têm direito a dar seus palpites e o COPOM costuma fazer uma “média” das opiniões oferecidas para levar em conta em suas decisões. Isso é que a grande imprensa costuma chamar de “na opinião do mercado”...

Mas o ponto a destacar nesse final é que há outras medidas a serem tomadas sem que o sacrifício imposto ao conjunto da sociedade seja de tal natureza. Durante a época áurea do neoliberalismo, havia uma sigla para os modelos que defendiam tal terapia ortodoxa. Eram conhecidos nos meios econômicos e financeiros como TINA, do inglês “there is no alternative”. Ou seja, o argumento era de que não haveria alternativa ao receituário neoliberal e muito menos aos sofrimentos impostos aos países que adotassem suas políticas. Como se os proponentes dissessem: “sim, nós sabemos e lamentamos que o processo seja doloroso; mas, infelizmente, não há alternativas”.

No entanto, a crise recente mostrou que, sim, existem alternativas. E várias. Nesse caso específico, um dos pontos chaves é mexer também na política cambial e na sistemática da conta de capitais. Teria quase o mesmo efeito dessa política de taxas de juros elevadíssima uma decisão que levasse em conta a desvalorização da taxa de câmbio do nosso real em relação ao dólar norte-americano e ao euro, por exemplo. É sabido e reconhecido que o nosso câmbio está sobrevalorizado, com todos os impactos negativos de uma verdadeira ilha de fantasia tupiniquim. Exportações desestimuladas, importações altamente favoráveis, ameaças de desindustrialização de setores importantes de nossa economia, riscos em nossas contas externas. E dá-lhe oferecer atrativos ao capital especulativo internacional que venha para cá, aportar em nossas praças, para ajudar a fechar o balanço a cada final de dia, de semana, de mês, de ano. Qual o principal chamariz? A taxa de juros mais alta do mundo! E tudo isso como se essa decisão, apresentada como neutra e isenta, não trouxesse custos ao nosso orçamento público e nem ao conjunto da economia.

Combinada ao realismo da necessária desvalorização cambial, faz-se necessário também implementar um maior controle sobre a absoluta liberdade de circulação de capitais em nosso território. Cabe uma política de taxação sobre o recurso especulativo que para cá venha em busca apenas da remuneração apetitosa do setor financeiro no curto prazo. A exemplo do que faz a maior parte dos países, estimular os valores que venham para uma permanência de longo prazo, no setor real e produtivo. Mas, assim como os outros fazem, deveríamos reduzir a nossa característica de cassino financeiro, impondo regras relativas a prazos de permanência e impostos a serem recolhidos para os valores orientados exclusivamente pelo faro do curto prazo.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Um debate fundamental acerca da institucionalização da política - uma discussão a partir da visão do filósofo húngaro István Mészáros

A atualidade histórica da ofensiva socialista: pela política extraparlamentar no século XXI

Fernando Marcelino

A urgência das questões levantadas por István Mészáros em A atualidade histórica da ofensiva socialista: uma alternativa radical ao sistema parlamentar, lançado pela Boitempo (2010) na coleção Mundo do Trabalho, não me permite fazer grandes rodeios nesta pequena resenha . Para Mészáros a verdadeira pergunta hoje é: como estabelecer firmemente uma direção global ao movimento socialista (diante do desdobramento histórico da crise estrutural do capital que afeta a totalidade dos trabalhadores e tem uma dimensão universal) conseguindo, em termos organizacionais e estratégicos, efetuar simultaneamente a dimensão negativa da luta de classes contra o capital e positiva para além do capital?

Mészáros aponta que a atual “crise do marxismo” se deve principalmente ao fato de que muitos de seus representantes continuam a adotar uma posição defensiva, numa época que deveríamos nos engajar numa ofensiva socialista em sintonia com as condições objetivas contemporâneas. Paradoxalmente, nos últimos 40 anos, juntamente com a manifestação da crise estrutural do capital, testemunhamos a disposição de muitos marxistas em buscar novas alianças defensivas e se envolverem com todos os tipos de revisões e compromissos ainda que não tenham nada para mostrar como resultado de tais estratégias fundamentalmente desorientadas. Desiste-se do horizonte socialista em nome de um “capitalismo democrático” sem seus excessos mais perversos, como se não fossem constitutivos desta mesma ordem social. Para o húngaro, essa desorientação não é simplesmente ideológica ou pode ser reduzida a uma questão de “traição” de determinadas personalidades. Na realidade, se quisermos encontrar uma explicação mais plausível do que essas idéias circulares de falha na “personalidade” devemos enfrentar os problemas estruturais de nossa “política democrática”. Emergem duas dificuldades desse conflito: por um lado a autorreferencialidade do discurso político que atua sob o horizonte estritamente institucionalizado das decisões políticas ignorando os interesses materiais do capital no resultado dos conflitos e antagonismos. Por outro lado encontramos a dificuldade relacionada com a forma com que o sistema parlamentar é tratado no discurso político tradicional, geralmente como “centro de referência necessário de toda mudança legítima. A crítica só é admissível em relação a alguns detalhes menores, visando corretivos potenciais apenas para remediar até certo ponto a estrutura da política parlamentar estabelecida” (2010, p.15).

O Parlamento como tal é tratado como tabu, excluindo-se a legitimidade de se defender a instituição de uma alternativa radical viável ao aprisionamento político-parlamentar da classe trabalhadora. Trata-se de assunto sério, pois sem o estabelecimento de uma alternativa radical ao sistema parlamentar não pode haver esperança de desembaraçar o movimento socialista de sua atual situação, à mercê das personificações do capital que existem em suas próprias fileiras (idem, p. 15).

O pensamento de Mészáros nos leva a imediata necessidade de se criar uma “alternativa estrategicamente sustentável ao sistema parlamentar” para “libertar o movimento socialista da camisa de força do sistema parlamentar burguês” . Portanto, para as perspectivas da emancipação do trabalho, nunca foi de tão grande importância a luta política e a crítica radical do Estado, inclusive suas “instituições democráticas” entre eles, o Parlamento. Até mesmo a forma mais avançada de Estado do sistema do capital – o Estado liberal-democrático com sua representação parlamentar e suas garantias democráticas formais e institucionalizadas de “justiça e imparcialidade” - fracassou em todas as promessas que a autolegitimavam. Além disso, como o Estado é a estrutura totalizadora de comando político do capital, a exigência para proteger a produtividade do sistema se assevera diante da atual crise estrutural. Sua crescente intervenção autoritária está, portanto, em sintonia com a dinâmica de reprodução socioeconômica voltada para a incontrolável expansão e acumulação de capital.

Entretanto o fardo que se coloca hoje para o movimento socialista é a reestruturação da própria política complementando a ação institucionalizada pela ampliação radical de formas extraparlamentares para combater o caráter extraparlamentar e destrutivo do capital. Mészáros aponta duas razões para que esse processo se desenrole: por um lado o aprofundamento da crise estrutural do capital que trás crescentes dificuldades do trabalho obter ganhos efetivos – ao molde do passado - através das instituições defensivas existentes. Isso corresponde ao desconfortável fato negativo de que algumas formas de ação anteriores (“as políticas de consenso”, “pleno emprego, “a expansão do Estado de bem-estar-social”, “keynesianismo para todos” etc.) estão objetivamente bloqueadas, impondo reajustes profundos na sociedade como um todo. Estar partindo dessa “negatividade brutal” inicial não significa que os reajustamentos serão positivos, mobilizando as forças socialistas num esforço consciente para se apresentarem como portadoras de uma ordem social alternativa capaz de superar a sociedade capitalista em crise. Como essas mudanças exigidas são muito drásticas, em vez de prontamente aceitarmos o “salto para o desconhecido”, é mais provável que se prefira seguir a “linha de menor resistência” ainda por um tempo considerável, mesmo que isso signifique derrotas significativas para as forças socialistas.

Por outro lado temos a pressão objetiva pela reestruturação radical das instituições de luta socialista, para que sejam capazes de ir ao encontro do novo desafio histórico, numa base organizacional que se evidencia adequada a necessidade crescente de uma estratégia ofensiva para além do capital. Está em jogo, portanto, a construção de uma estrutura organizativa capaz de não só negar a ordem dominante, mas também, simultaneamente, de exercer funções vitais positivas de controle para romper o círculo vicioso de controle social do capital e sua própria dependência negativa e defensiva em relação a ele.

Por isso a importância do “estabelecimento de uma alternativa radical ao sistema parlamentar” já que não pode haver estratégia viável de transformação socialista “sem prosseguir com firmeza na realização da unificação das dimensões política e material de reprodução também no domínio organizacional [...]. Tal potencial é viável pela tentativa consciente de superar a fatídica separação entre o braço industrial do movimento operário e o braço político (os partidos no Parlamento), separados sob o invólucro capitalista de ambos por meio da aceitação da dominação parlamentar pela maioria do movimento operário ao longo dos últimos 130 anos” (idem, p. 34). Essa domesticação das forças do trabalho é diametralmente oposta “a alternativa radical de fortalecimento da classe trabalhadora para se organizar e se afirmar fora do Parlamento – por oposição à estratégia derrotista seguida ao longo de muitas décadas até a perda completa de direitos da classe trabalhadora em nome do ‘ganhar força’ – [que] não pode ser abandonada tão facilmente, como se uma alternativa de fato radical fosse a priori uma impossibilidade” (idem, p. 35). Mészáros afirma que a ação extraparlamentar é absolutamente vital para o futuro de um movimento socialista rearticulado radicalmente. Esse é o desafio que poderia afetar o poder do capital ao assumir as funções de produção decisivas do sistema ao mesmo tempo em que adquire o controle sobre todas as esferas correspondes da tomada de decisão política. O não-condicionamento pela “prisão circular da ação política institucionalmente legitimada pela legislação parlamentar” da ação extraparlamentar de um movimento revolucionário de massas, ativo em todas as formas de luta política e social, ainda pode ter como horizonte “utilizar plenamente as oportunidades parlamentares quando disponíveis, ainda que limitadas nas atuais circunstâncias, e, acima de tudo, sem medo de afirmar as demandas necessárias da ação extraparlamentar desafiadora” (idem, p. 43). O papel de um movimento revolucionário extraparlamentar é duplo. Cabe a ele “formular e defender organizacionalmente os interesses estratégicos do trabalho como alternativa sóciometabólica historicamente viável” ao enfrentar conscientemente e negar vigorosamente, em termos práticos, as determinações estruturais da reprodução material do capital que se manifesta na subordinação do trabalho ao processo socioeconômico ao mesmo tempo em que o poder político (que hoje prevalece no Parlamento) deve ser contestado “por meio da pressão que as formas de ação extraparlamentar podem exercer sobre o Legislativo e o Executivo” (idem, p. 44). Por outro lado as forças parlamentares da política não podem se articular de forma auto-suficiente e autônoma já que não são organizações autoconscientes. O maior desafio continua sendo a formação de militantes políticos nas organizações extraparlamentares em coexistência com partidos de experiência histórico-concreta na luta de massas e com o horizonte definido para uma revolução socialista.

Muitas vezes essa reciprocidade é rompida quando as forças políticas institucionais procuram institucionalizar as forças extraparlamentares – e assim domesticá-las - ou a procura imediata dos recursos econômicos do Estado acaba por tornar o movimento extraparlamentar uma grande massa de manobra para interesses partidários escusos . A questão é que hoje a aceitação das amarras parlamentares como a única estrutura legítima da ação política, a aceitação das regras internas do jogo parlamentar – mesmo que praticada com propósito radical – só pode produzir o auto-encarceramento parlamentar da esquerda. Isso significa deixar de lado a política? Ao contrário, por mais desencorajador que sejam suas formas institucionais, não existe opção fora da política. O desafio para o movimento socialista é exatamente renovar práticas revolucionárias extraparlamentares para bater de frente com as forças destrutivas extraparlamentares do capital sob a crise estrutural em desdobramento. Como escreve no final da Introdução:

É claro que um movimento organizado revolucionário consciente de trabalhadores não poderá ser contido dentro da estrutura política restritiva do Parlamento dominado pelo poder extraparlamentar do capital. Ele também não terá sucesso como organização sectária auto-orientada. Poderá se definir com sucesso por meio de dois princípios orientadores vitais. Primeiro, a elaboração de seu próprio programa extraparlamentar orientado para os objetivos da alternativa hegemônica abrangente para assegurar uma transformação sistêmica fundamental. E, segundo, igualmente importante em termos de organização estratégica, o envolvimento ativo na constituição do necessário movimento extraparlamentar de massas, como portador da alternativa revolucionária capaz de mudar, qualitativamente, também o processo legislativo. Isso representaria um grande passo na direção do fenecimento do Estado. Apenas por meio desses desenvolvimentos organizacionais, com o envolvimento direto das grandes massas será possível imaginar a realização da tarefa histórica de instituição da alternativa hegemônica dos trabalhadores no interesse da emancipação socialista abrangente (idem, p. 49, 50)
A pergunta que fica é: estamos preparados para superar o “fim da história” da democracia-liberal como horizonte último articulando assim uma alternativa histórica tanto ao capital quanto ao sistema parlamentar estabelecido? Emerge a necessidade de instituir algumas mudanças fundamentais na organização e orientação do movimento socialista para uma intervenção radical que não seja restrita à esfera política e que conteste também as estruturas materiais da própria relação-capital. Não há saída para o movimento socialista senão criar as condições para tal empreitada revolucionária em escala internacional de massas. Não é a toa que “o percurso à frente é provavelmente muito árduo e, sem dúvida, não tem atalhos nem pode ser evitado” (idem, p. 197).

Sem dúvida A atualidade histórica da ofensiva socialista é uma poderosa arma contra a resignação e as estratégias estreitas do movimento socialista que, cada vez mais, mostram-se estéreis ao se limitar a ação parlamentar e não correspondem ao fardo histórico que temos pela frente no processo de transição ao socialismo. Numa época em que parte considerável das instituições de luta faz parte do problema e não da solução, Mészáros proporciona uma profunda oxigenação na esquerda ao esgarçar os limites do possível e do impossível afirmando a validade e universalidade da solução socialista como a única alternativa possível à realidade antagônica e destrutiva do capital.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Copa do Mundo desvia a atenção de problemas mais cruciais

Agência Carta Maior - 19/07/2010

DEBATE ABERTO

Mídia e Copa: o mundo reduzido ao futebol

Um amigo chama minha atenção para a cobertura “enviesada” que a grande mídia está fazendo, nestes dias de Copa do Mundo, do gigantesco vazamento de óleo provocado pela empresa “inglesa” Bristish Petroleum, no golfo do México.

Venício Lima

Não existe melhor exemplo para expressar aquilo que o professor canadense Marshall McLuhan (1911-1980) denominou “aldeia global”, há mais de quatro décadas. A tecnologia tornou possível que as imagens da Copa do Mundo de Futebol estejam disponíveis em todo o planeta, ao vivo, simultaneamente.
Haverá outro evento midiático capaz de interessar e mobilizar tanta gente? No Brasil, quando está envolvida a “seleção canarinho”, já dizia com propriedade Nelson Rodrigues: é a pátria que está de chuteiras.

São trinta dias corridos, cerimônias de abertura e encerramento, 64 jogos ao vivo (124 horas), treinos, entrevistas, reportagens especiais, etc. etc. Duas redes abertas – a Globo e a Band –, os canais de esporte da TV paga e as demais emissoras (que não estão transmitindo os jogos), com programação especial. Só a Globo tem 300 pessoas na Copa: 220 profissionais que foram do Brasil e mais 80 terceirizados contratados na África do Sul. E, por óbvio, não é só a televisão, nem o rádio. Jornais e revistas também “entram no clima” da Copa.

Ademais, é neste dias que a predominância da lógica comercial da grande mídia se revela em sua dimensão plena. Além da “Jabulani” que rola, há muito dinheiro em jogo. E claro, o mundo da grande mídia parece reduzido ao futebol.

A British Petroleum

Um amigo chama minha atenção para a cobertura “enviesada” que a grande mídia está fazendo, nestes dias de Copa do Mundo, do gigantesco vazamento de óleo provocado pela empresa “inglesa” Bristish Petroleum, no golfo do México. Segundo ele, este pode ter sido o maior desastre ecológico do mundo. Todo o golfo poderá ter sua fauna e flora marinha comprometida de forma irreversível. E, no entanto, a grande mídia, não dá ao desastre a dimensão que ele deveria ter.

Primeiro, na maioria das vezes, a grande mídia se refere à British Petroleum apenas como “BP”. Estaria em andamento uma estratégia de RP para, escamotear de qual país é a empresa responsável pelo desastre ecológico?

Segundo, onde está o Greenpeace? Onde estão O Globo, a Rede Globo, a Folha, o Estadão, a CBN e seus “analistas políticos”, os "econômicos", os "apresentadores", as "ONGs", ambientalistas, verdes, igrejas, atores hollywoodianos? Onde estão todos que se manifestaram ruidosamente por ocasião do leilão da hidrelétrica de Belo Monte?

Terceiro, a grande mídia faz o jogo da Casa Branca, anunciando que o presidente Barack Obama “quer saber em quem ele tem que dar um chute no traseiro”, como se um acidente que é devastador para a humanidade pudesse ser resolvido dessa forma.

E por último, há comentaristas que tentam até mesmo trazer a questão para o Brasil insinuando que o desastre no Golfo do México “deve alertar os brasileiros para a exploração e prospecção da Petrobrás no pré-sal”.

Interesse público

Por óbvio, os problemas da cobertura do desastre ecológico provocado pela British Petroleum no golfo do México não ocorrem apenas em períodos quando a agenda midiática está inteiramente submetida à lógica comercial de eventos da proporção de uma Copa do Mundo. Nestes períodos eles apenas se acentuam.

Por isso – e apesar de todo o envolvimento histórico cultural que os brasileiros temos com o esporte bretão – nunca é demais lembrar que, mesmo em época de Copa, o interesse público vai muito além do entretenimento e o mundo não se reduz ao futebol.

Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

A falência do jornalismo impresso

Agência Carta Maior - 19/07/2010

O fim do Jornal do Brasil impresso e o papel do jornalismo público


O jornalismo de mercado, com o fim do JB impresso, revela, uma vez mais, sua incapacidade de dar solução para o problema da dívida informativo-cultural e para permitir, finalmente, que o povo brasileiro tenha acesso a uma tecnologia do século XVI, a imprensa de Guttemberg. Se estamos a caminho de superar a miséria absoluta, também é chegada a hora - sem confrontar com as modalidades de informação na internet, mas complementando-as - de também superarmos a indigência na leitura de jornal, a miséria informativo-cultural. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida (*)


“A minha cama é uma folha de jornal”

Noel Rosa

Primeiro foi o fechamento da Tribuna da Imprensa, logo seguido pelo fechamento da Gazeta Mercantil. Agora, o curso de agonia da imprensa comercial anuncia o fim do Jornal do Brasil em sua versão impressa. Junto dele está a vertiginosa queda de tiragem dos jornais que resistem, evidentemente acompanhada da clamorosa queda de sua credibilidade. Este talvez seja mais um alerta e mais uma oportunidade para discutir os limites quase que intransponíveis para o jornalismo no modelo comercial e a necessidade de insistir e estimular a conscientização e as iniciativas para a construção de um jornalismo público.. Indo direto ao tema: é bem provável que o presidente Lula tenha um papel histórico também para romper os tabus e preconceitos que impedem os brasileiros de ter um jornal de missão pública, nacionalista, popular.

Um jornal centenário, sonho de uma geração de jornalistas, inovador em forma e conteúdo, o Jornal do Brasil, que já vinha definhando, como muitos outros diários, agora anuncia que deixará as bancas. Não estará mais nas praias, nos botequins, nos escritórios, nos ônibus, nas universidades, nem mesmo nas feiras para embrulhar peixe.

Durante anos registrou dificuldades financeiras. Arrastou-se endividado em bancos públicos, muito embora sua linha editorial, como de resto de toda a mídia, hostil ao papel do estado na economia. Mas, não quando os recursos públicos salvam a crise.

A dívida informativo-cultural

Até quando vamos assistir este definhamento sem abrir um grande debate nacional sobre o futuro da imprensa no Brasil, sobre a dívida informativo-cultural acumulada, sobre a proibição, na prática, da leitura de jornal no Brasil pelo o povo? Até quando os jornalistas vão superar a discussão estreita que vem fazendo acerca da titularidade e diploma desvinculada da extinção concreta e incontornável de postos de trabalho e da proibição da leitura de jornal pelo povo? Multiplicaram-se as faculdades de jornalismo e reduzem-se os jornais e os postos de trabalho. Paradoxo! Tínhamos um exército de desempregados diplomados. Mesmo que o diploma volte a ser obrigatório, teremos ainda mais desempregados e menos lugar para trabalhar. E o povo sem ler jornal!

Enquanto a Argentina tem o jornal Página 12, o México tem o La Jornada, a Bolívia tem o jornal Cambio - criado há apenas 8 meses e já é líder de vendas - a Venezuela tem o Correio do Orenoco, todos fazendo o contraponto da linha editorial da imprensa oligárquica, teleguiada pelos interesses estrangeiros, no Brasil temos o domínio completo de uma imprensa anti-nacionalista e anti-popular. Não por acaso, com hostilidade unânime à candidata de Lula. São estes jornais e revistas contra a nacionalização do petróleo, criticam a reconstrução da indústria naval, exasperam-se com a valorização do salário mínimo, insistem na tese conservadora da disciplina fiscal, da austeridade, do corte de gastos, quando, evidentemente, o país precisa aumentar decididamente os investimentos públicos para dar sustentação ao crescimento econômico, que lhe permita reduzir as disparidades internas e as vulnerabilidades externas. Esta imprensa chega ao ponto de publicar documentação falsificada sobre uma candidata à presidência, a colocá-la em uma charge como personagem da prostituição (nenhuma ofensa deste escriba às trabalhadoras do sexo), mas, no seu discurso de falsa ética e moral, esta imprensa esquece que em suas páginas de classificados divulga, portanto associa-se comercialmente, deprimente atividade do comércio de sexo.

Última Hora e Le Monde

É hora de recorrer mais uma vez à história para repararmos como nascem e como morrem os jornais. Aqui vemos o JB definhar depois de passar a ser controlado por empresários favorecidos pela privatização. Estão perdendo leitores, mesmo quando há avidez para a leitura. Na França, o Le Monde nasceu após a Segunda Guerra estimulado por De Gaule, como parte de uma visão nacional.. Aqui no Brasil, percebendo a hostilidade unânime de uma imprensa movida por uma cruzada anti-nacional, o Presidente Getúlio Vargas também estimulou o nascimento do jornal Última Hora, popular, nacionalista, que informava sobre os temas de interesse da classe trabalhadora, criando um paradigma jornalístico.

Como praticamente todos os órgãos de imprensa, o Última Hora também recebeu créditos de bancos públicos. Por acaso o Jornal do Brasil nunca os recebeu? Ou O Globo? Ou a TV Globo, que nasceu de modo irregular, a partir de operação ilegal denunciada vastamente na CPI do Grupo Time-Life, também não recebeu? Por quantos anos a TV Globo foi favorecida por taxa subsidiada da Embratel para uso de satélites????

Deixemos de hipocrisia: os grandes grupos de mídia só se transformaram em gigantescos conglomerados em razão de inescrupuloso favorecimento creditício estatal e não em função de sua competência empresarial. Para monopolizar audiência a TV Globo chegou a atrasar em 9 anos a introdução do aparelho de controle remoto no Brasil, conforme denúncia do ex-Ministro das Comunicações, Euclides Quandt de Oliveira.

Fundação para o Jornalismo Público

Sustentamos que é chegada a hora para que seja levada ao presidente Lula - esta é afinal uma discussão estratégica de nação, não de mercado - numa proposta de criação de uma Fundação para o Jornalismo Público, destinada a tornar a leitura de jornal no Brasil um hábito democrático, popular, acessível, viabilizando a pluralidade e a diversidade informativas, cada vez mais ameaçadas quanto mais se fecham jornais. E para sustentá-la muitas alternativas podem ser discutidas, entre elas aquela mais utilizada pelos grupos de mídia que são sustentados em boa medida pelas verbas publicitárias do Estado ao qual tanto agridem. Ou contando com a participação de Fundos de empresas públicas, muitos deles com altíssima rentabilidade, que bem poderiam ter uma participação ativa nesta Fundação de natureza pública, destinada a cumprir aquilo que embora expresso na Constituição, está muito longe de tornar-se realidade no Brasil: a informação é um direito de todos os cidadãos.

O fim do JB no papel e o papel de Lula

O presidente Lula já criou a Empresa Brasil de Comunicação, cumprindo com disposto constitucional que, no seu artigo 223, estabelece que a comunicação deve ser complementar entre os sistemas público, estatal e privado. A TV Brasil vem fazendo esforços importantes para adquirir visibilidade nacional, audiência e qualidade informativo-cultural. E tem surpreendido positivamente, muito embora haja muito por fazer ainda.

Mas, na área do jornalismo, o que se nota é redução assustadora do número de jornais, da tiragem de jornais, de sua credibilidade, ao lado de uma incompreensível multiplicação de faculdades de jornalismo, uma verdadeira indústria de canudos, sem que se possa garantir aos formados, algum dia, a oportunidade de trabalhar naquilo em que estudaram. Propaganda enganosa?

O jornalismo de mercado, com o fim do JB impresso, revela, uma vez mais, sua incapacidade de dar solução para o problema da dívida informativo-cultural e para permitir, finalmente, que o povo brasileiro tenha acesso a uma tecnologia do século XVI, a imprensa de Guttemberg. Se estamos a caminho de superar a miséria absoluta, também é chegada a hora - sem confrontar com as modalidades de informação na internet, mas complementando-as - de também superarmos a indigência na leitura de jornal, a miséria informativo-cultural.

E o presidente Lula, por sua trajetória, pelas tantas chicotadas que tomou das mais maledicentes formas de preconceitos desta imprensa oligárquica, é o mais credenciado para encorajar e estimular, não uma revanche, mas uma solução democrática para que os brasileiros possam, finalmente, não apenas alimentar-se com regularidade, como crescentemente ocorre, mas também ter acesso a jornal para a leitura cidadã e não apenas para forrar o chão, como na música de Noel .

(*) Beto Almeida é Diretor da Telesur

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O paraíso dos banqueiros: a extorsão continua

Agência Carta Maior - 13/07/2010



DEBATE ABERTO


Spread bancário: escândalo nacional

Quem costuma “entrar no vermelho” no final do mês, sabe que o gerente não se preocupa muito com a situação do cliente. Muito pelo contrário: o banco é remunerado na base de 160% anuais por cada real “negativo”. Qual outra operação no mercado financeiro rende à organização tal ganho?



Paulo Kliass

A condição duradoura e sustentada de nosso País, como o campeão mundial da taxa de juros há mais de uma década, não é a única característica a indicar a impunidade do sistema financeiro e a existência de grupos no interior da própria administração pública a defender os interesses da banca privada. A começar pelo Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que construiu sua carreira profissional no setor e chegou à presidência internacional do conglomerado do Bank of Boston. Tudo isso antes de ter sido convidado, lá no início de 2003, para o posto que ocupa atualmente.
Em geral, ambientes onde predominam taxas de juros elevadas tendem a ser os mais interessantes para potencializar a rentabilidade de instituições bancárias e financeiras. Como um dos parâmetros mais importantes para as operações levadas a cabo por tais organizações é o chamado “custo do dinheiro”, quanto mais elevado for tal fator, maior tende a ser a taxa de retorno para as mesmas.
Dentre as funções clássicas dos bancos ao longo do capitalismo, situa-se a de intermediação de recursos, tornando viáveis as operações de crédito e empréstimo. Assim, eles captam recursos da sociedade e do mercado, em uma ponta, e retornam tais valores aos agentes (indivíduos e empresas) que necessitam de recursos e não os possuem na forma de liquidez imediata, na outra ponta do sistema. A origem da formação do lucro dos bancos, portanto, estaria na diferença entre: i) a taxa de remuneração que eles oferecem aos agentes que se dispõem a aplicar seus recursos nas distintas formas que as instituições financeiras oferecem; e ii) a taxa de juros que eles cobram dos tomadores de empréstimos e crédito, operações essas que são viabilizadas justamente com os recursos aplicados do item (i) e que passam a ficar temporariamente nas carteiras dos bancos.
Porém, com o processo de aprofundamento da financeirização da acumulação capitalista, observou-se o crescimento de funções cada vez mais complexas e específicas no mundo financeiro. A essas funções básicas do sistema bancário, acima referidas, foram sendo adicionadas outras como as operações com hipotecas (base da crise recente do sistema norte-americano), as operações de “leasing” e arrendamento mercantil, as operações de consórcio, o mercado de seguros, as operações nas bolsas de valores, as operações nas bolsas de mercadorias e de mercado futuro, as operações de câmbio com moedas estrangeiras, as operações de exportação e importação, as operações de previdência complementar e os fundos de pensão, dentre tantas outras. Como todos esses chamados “serviços” são, na verdade, negócios em que o objetivo é aumentar o ganho das instituições financeiras, suas fontes de lucros também foram sendo ampliadas, assim como foi crescendo a sua importância no dia-a-dia das empresas e dos indivíduos.
Mas, como diz o conhecido jargão do mercado financeiro, “banco é banco”. Ou seja, por mais que avancem os mecanismos complexos das operações financeiras, a instituição bancária ainda guarda suas origens na clássica função de intermediador de recursos. E com isso, um dos principais elementos utilizados para avaliação da performance do setor continua a ser o chamado “spread” bancário. O termo vem do inglês, sugerindo alguma analogia com a idéia de ampliar. Foi incorporado ao “financês” do mercado internacional justamente para identificar o diferencial entre as taxas que os bancos praticam em suas operações: aquela que eles utilizam para remunerar os depósitos e aquela que eles cobram dos tomadores de empréstimos. Como a própria língua explicita, a última é uma amplificação, uma ampliação da primeira. Essa é a base clássica da operação bancária: no limite, a diferença do quanto ele paga em relação ao muito que ele recebe.
No caso brasileiro, como alertamos desde o título do artigo, os níveis do spread praticado no mercado financeiro são um verdadeiro escândalo. Não se trata de uma novidade dos tempos de hoje, muito pelo contrário. Nos tempos da inflação elevada, havia uma maior dificuldade de sentir os efeitos do diferencial das taxas praticadas pelos bancos, inclusive pelo fato da perda de poder da moeda ser muito expressiva. Quem não estava em seu cotidiano envolvido com mensuração de inflação passada, inflação futura, taxas de juros e os índices diários para tais fenômenos, dificilmente conseguia se defender da redução do poder de compra de um volume de recursos considerado. Mas o spread já era bastante elevado e os bancos eram os maiores beneficiados pelo sistema que se habituava à alta inflação.
A questão é tão gritante que, recentemente, até mesmo a Federação dos Bancos (Febraban) e o Banco Central passaram a tentar tratar do assunto, buscando encontrar algum tipo de argumento que explicasse a aberração injustificável. Mas também o debate e a indignação obedecem a um movimento cíclico. Durante o primeiro mandato de Lula e ao longo do período de maior arrocho de crédito derivado da crise internacional atual, havia maior espaço para reclamação nos meios de comunicação. Mas, passada a marolinha e com a retomada da oferta de crédito, o espaço para crítica minguou, apesar dos níveis de spread praticado ainda serem absurdos.
Vamos a alguns números, obtidos nas páginas do próprio sistema. Escolhemos as taxas médias praticadas pelas instituições financeiras em algumas operações durante o primeiro semestre desse ano:

Crédito consignado - 2,03% ao mês - 31,3% ao ano

Veículos - 1,86% ao mês - 24,7% ao ano

Crédito pessoal - 3,03% ao mês - 43,1% ao ano

Crédito especial - 8,3% ao mês - 160,0% ao ano.

Aí em cima estão as taxas relativas à cobrança, o quanto os bancos recebem dos tomadores de empréstimo. Pelo lado da remuneração, os valores são muito menores. A caderneta de poupança, por exemplo, remunera na base de 6% ao ano, acrescida de uma pequena taxa definida pelo Banco Central. Quem já se preocupou em verificar a remuneração dos fundos de renda fixa oferecidos pelos bancos onde têm suas contas, achou índices que giram, em média, entre 8% e 10% ao ano.
Ora, captando a taxas tão reduzidas e cobrando as taxas mostradas lá em cima, dá para imaginar o nível de rentabilidade do sistema. Tanto mais quando se sabe que as operações de crédito consignado são típicas de assalariados (em geral, funcionários públicos) e aposentados/pensionistas – ou seja, oferecem risco praticamente igual a zero da chamada “inadimplência”. O crédito para compra de veículos ocorre numa operação casada, em que o veículo fica como garantia da operação. Caso haja interrupção do pagamento, o veículo “alienado” fica com a instituição que fornece o crédito. Quem já tentou fazer operação de empréstimo em banco sabe das inúmeras condições impostas para se obter o recurso e , não obstante, das altas taxas cobradas. E quem costuma “entrar no vermelho” no final do mês, sabe que o gerente não se preocupa muito com a situação do cliente. Muito pelo contrário: o banco é remunerado na base de 160% anuais por cada real “negativo”. Qual outra operação no mercado financeiro rende à organização tal ganho?
De acordo com os cálculos recentes divulgados pelo Banco Central a respeito do spread, observa-se uma leve redução nas operações com pessoa física (atualmente em torno de 30% ao ano) e uma tendência à manutenção das operações com pessoa jurídica no patamar de 17% ao ano. Na média do sistema, os níveis atuais são de 23% ao ano. Apesar de toda a crítica à metodologia, os valores são bastante elevados para qualquer tipo de comparação internacional e poderiam ser objeto de redução significativa.
Para tanto, bastaria o Banco Central assumir de forma efetiva a sua função de órgão regulador e fiscalizador do sistema financeiro, rompendo com a lógica de defender os interesses do sistema bancário e passar a defender os interesses do conjunto da sociedade na sua relação com tais instituições. As medidas são simples, mas falta vontade política para fazê-lo. Isso porque os interesses dos bancos são fortes, todos sabemos. Bastariam decisões da própria diretoria do BC e do Conselho Monetário Nacional, estabelecendo limites e prazos de adaptação dos bancos na sua prática de spread mais reduzidos junto aos clientes.
Por outro lado, o governo deveria utilizar o poder de pressão e de mercado das duas grandes instituições bancárias federais no mercado de varejo: o Banco do Brasil (BB) e a Caixa Econômica Federal (CEF). Ao invés de jogá-los para fazer a concorrência seguindo as regras indecorosas dos bancos privados, a estratégia deveria ser exatamente a oposta. Recuperar o caráter público dos dois bancos estatais e começar a praticar taxas de juros com spread reduzido e tarifas bancárias menos escabrosas. Juntos, os dois representam 1/3 dos ativos do sistema financeiro. Além disso, tendo em vista a boa imagem das instituições junto ao mercado e à opinião pública de forma geral, tal comportamento certamente obrigaria a banca privada a reduzir suas margens para se manter competitiva e não perder sua fatia de mercado. Afinal qual a necessidade das duas estatais serem responsáveis por 1 em cada 4 reais de lucro do sistema financeiro?
O que mais impressiona é que um tema tão importante e sensível como esse esteja ainda quase ausente do debate das eleições de outubro. Com a palavra, candidatos e candidatas.

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Após a turbulência de alguns problemas técnicos

Quero me desculpar pela ausência desde a última postagem devido a situações de manuseio do blog e dificuldades de login. Aproveito a oportunidade para resgatar algumas observações relacionadas as questões de Copa do Mundo e ideologia. Para quem gosta de praticar esportes e vivenciar através da mídia os atletas profissionais, em particular o futebol - no caso do brasileiro não se trata apenas de paixão, mas também de uma dimensão alienada extremada, a Copa do mundo tornou-se o palco dos artistas da bola ou da falta deles, principalmente nos jogos da primeira fase do mundial e também de toda a cartolada diplomaticamente institucionalizada e sabatinada pelo marketing esportivo e pelas diversas marcas de uma diversidade de produtos e serviços que patrocinavam essa festa que chega a percorrer a insanidade de bilhões de pessoas fetichizadas pelo deslumbre do capitalismo-espetáculo-bola. Bilhões também é a soma dos recursos manuseados por essa aristocracia dirigente do esporte mais atrativo da terra. Ricardo Teixeira, João Havelange e Joseph Blatter estão menos interessados no futebol esporte do que se imagina, ao contrário do futebol negócio para eles. Modificar as regras do futebol e aperfeicoá-lo é o que menos importa, assim como inserir outros milhões de meninos e meninas no esporte como um todo a partir do futebol no mundo todo. Com esse volume de capital a inserção de uma gama enorme de crianças e jovens seria bem possível, mas é claro que a ingenuidade não me bateu à porta, já que acredito que o capitalismo não foi feito para isso a não ser que se aproveite de alguns programas sociais de periferia que visam o esporte para adocicar as imagens de que tanto a mídia precisa para adornar as desigualdades e a própria violência, em que pese o abuso do poder econômico dessa entidade que tem mais países membros que a própria ONU, a famosa FIFA.